Sobrevive
VIVE
Sobre
Sob
Pra que tanta sensibilidade e não ser leve? Pra que tanto coração se não ter espaço? Pra que tantas lagrimas se não enche um rio? Pra que tantas perguntas se não há respostas? Pra que tanta madrugada? Pra que tantos eus? Pra que tanto tu em mim? Pra que tanto amor se dói? Pra que tanta força se é abstrato? Pra que tantas curvas em linha reta? Pra que tanto calor? Pra que tantos sonhos e pouca vida? Pra que dormir se tem que acordar? Pra que tanto planeta se o destruímos? Pra que tantos caminhos e poucas partidas? Pra que? Pra que? Pra que saber?
Uma alegria boba, involuntária, despretensiosa. Um sorriso discreto no rosto. Um olhar distante. Uma cor amarela entrava pela brechinha da janela, poeirinhas dançavam.
Só havia silêncio, os joelhos quase se encostavam. No canto do quarto, sentada na almofada ela lia. Às vezes o olhar distante e a feição alegre interrompiam a leitura, ou não! Talvez as pausas fossem mergulhos.
Aquela imagem dela feliz, sentada no canto do quarto, uma luz amarela a atravessar seus cabelos, me prendeu por minutos, ousaria dizer horas, mas seria um grande exagero, não importa, o tempo aqui é menor que as poeirinhas dançarinas. Única coisa que me importa é guardar em meu coração, a menina de pernas longas, de sorriso tímido e de cachos avelã.
Foi!
Foi de ciranda?
De ciranda foi!
Foi, foi, foi
Atrás da ciranda que meu amor foi
Foi, foi, foi
Foi amor de ciranda?
Foi!
Foi, foi, foi
Roda ciranda, roda ciranda, roda...
Roda menina,
Na ciranda
Rodar na ciranda que se foi
Foi, foi, foi
Foi a ciranda que se foi
Foi, foi, foi
As palavras me enviaram até uma imagem, escura e tensa de um corpo magro. Chamou minha atenção, não pela sua nudez, talvez pelo tom azulado que a luz foi criando ao fundo, talvez pelo corpo dividir o espaço com a escuridão.
O silêncio da foto me era polifônico, e segui as quinze imagens, quase como uma via sacra. – Descreveram Cristo como um corpo magro e sofrido, que caminhou até o calvário/ ressurreição, em Via Crúcis. E seu sofrimento/amor é lembrado pelos cristãos e revivido pelos católicos com catorze estações (na Via Sacra). – Não comparei/comparo o corpo encontrado na imagem com Jesus Cristo. Mas a analogia é uma coincidência existente, percebida agora, após muitas outras palavras e imagens deste corpo.
Antes era uma foto escura e azulada, nua, do silêncio. Mas senti que era muito mais que isso, havia uma agonia gritante, uma dor, não era apenas sofrimento, era uma agonia e dor de existir, de transformação, era um conjunto de “auto” – autoencontro, autodescoberta, autodestruição... – mesmo com o peso que ela parecia ter, para mim aquela imagem me fez sentir leve. As outras imagens anteriores e posteriores da série que ela fazia parte, também me agradaram – partes, divisões, cores, sombras, luzes, desfocalizações... – além da estética, a sensibilidade que ali estava registrada/ transformada, fez-me sentir felicidade. Senti-me ainda mais atraída, não foi o corpo, mas, tudo que ali habitava e eu ainda não conhecia, apenas sentia que era bom.
Hoje, esse mesmo corpo, não tão magro, não tão escuro, não tão tenso, continua a chamar a minha atenção. As suas palavras continuam a construir imagens, nuas, puras, azuis, amarelas – multicoloridas. Seu silêncio é polifônico, às vezes música. Não há uma Via Crúcis, cresce um jardim. Sinto ainda sua agonia de existir, pois ele pulsa e é sensível a isso. Os “autos” são muitos. O peso, nunca existiu, tudo flui. Tudo que era desconhecido me atraiu, agora é tão mais bonito. Tudo que ainda não conheço continuo a sentir que é bom.
Antes o que era medo de amar, hoje é amor.
No caderninho florido, tentei congelar o dia, guardá-lo em palavras. Pensei numas logo que acordei, mas as deixei passar. Andando na esteira, a minha frente dançavam frases, versos, músicas e letras, pedi pra aguardarem um pouco mais, mas quem controla a felicidade? E o dia foi todo assim, um desfile. Consegui escrever felicidade e feliz, várias vezes, porque, felizmente, essas duas palavras decidiram aguardar, dentro de mim, todo dia 10. Aproveito a companhia delas e me alegro todos os dias. Floreio-me para esperar o dia 10 chegar, e ele tem sido assim, feliz e deixado a felicidade tomar conta de mim, do jardim, do depois, da caixinha azul, das fitas amarelas, dos livros nas estantes... e de tudo que vai acumulando ao longo de cada dia 10. Ou melhor, de cada dia, dos dias 10, 11, 12, 23, 24, 29 e os demais ímpares e pares do calendário.